Buscar

Sobre o Bolsonaro nazista na propaganda do PT

Por Raphael Torres Brigeiro


(Texto escrito por ocasião da exibição de peça de propaganda eleitoral da campanha de Fernando Haddad no final do primeiro turno: https://www.youtube.com/watch?v=AlsT5HZGnaY)


Eu me lembro até hoje de uma das assembleias que aconteceu durante as jornadas de 2013. Esta, a que me refiro, aconteceu no Largo São Francisco de Paula, bem em frente ao IFCS. E foi chatíssima. Chatíssima porque foi conduzida, a despeito de toda a energia das jornadas, nos mesmos moldes daquelas assembleias que qualquer um que já tenha ido a um evento de sindicato/grêmio estudantil/partido conhece. Não me lembro de nenhuma das falas da mesa. Mas lembro bem de duas coisas. Primeiro, a enorme dor lombar que eu estava sentindo por estar sentado no chão com as pernas na mesma altura que meu quadril (quem tem lombalgia ou mais de 30 deve saber do que estou falando). E, segundo, antes de nos sentarmos para a assembleia, de uma jovem que distribuía panfletos criticando o governador Sérgio Cabral. No papel, uma foto deste senhor havia sido editada de tal maneira que, ele aparecia vestido em um uniforme no estilo dos camisas-pardas nazistas, além do cabelo e o bigodinho no estilo Adolf Hitler. Depois de olhar atentamente para a cópia que ela já havia entregue para o camarada que estava ao meu lado, ela se dirigiu a mim. Prontamente, eu recusei o papel e disse pra ela as seguintes palavras (ou pelo menos algo parecido com isso): "Não, obrigado. Não acho que o Cabral mereça ser comparado com Hitler. Hitler teve muito trabalho pra ser Hitler." A jovem, visivelmente atônita com o que eu disse, me encarou por alguns segundos, provavelmente sem entender exatamente o que eu queria dizer ou, quem sabe, até achando que eu estivesse fazendo um elogio ao líder nazista. No final, seguiu em sua tarefa panfletária e eu continuei em pé, aguardando a dor lombar que viria.

Esse episódio me veio à memória, por conta da nova propaganda do PT, em que o partido associa diretamente o Bolsonaro à imagem de Hitler, intercalando declarações absurdas daquele com momentos de fala deste, terminando com um desenho estilizado, do infame cabelo e bigodinho e os dizeres "Ele não". Por que essa propaganda me fez lembrar esta breve interação que tive com a jovem dos panfletos? Porque o panfleto de 2013 explica a razão da impossibilidade de que a propaganda tenha o efeito esperado.

Naquele dia, em frente ao IFCS, eu recusei o papel daquela maneira - talvez excessivamente sardônica - porque, entre outras razões, era e sou estudante da obra de Hannah Arendt. Um dos motes do pensamento dessa autora era a necessidade de distinção de determinados conceitos-experiência. Distinção nesse caso não equivale à precisão. Aliás, frequentemente, seus textos sucumbiam diante da necessidade de precisão (qualquer um que tenha lido o ensaio "Que é autoridade?", sabe bem do que estou falando). A distinção sempre tem em vista a diferenciação de um conceito frente a outros. Ação é distinta de trabalho e labor. Pensar é diferente de querer e julgar. Poder, autoridade e violência não circunscrevem os mesmos fenômenos. Sendo assim, depois de tanto ler, reler, e estudar seus textos, fiquei um tanto obcecado com essa busca pela distinção conceitual. De tal modo, era cristalino para mim que o governo Cabral era obviamente violento e racista - mais um na imensa lista de gestões que por toda história política brasileira que fazem uso cotidiano, metódico e seletivo de meios violentos para gerir a população. Mas nada disso o qualificava para ser chamado de nazista. Nazismo, uma das formas históricas do tipo de regime político que Arendt chamou de "Totalitarismo" envolvia mais do que o mero recurso excessivo à violência: para ela, a essência do domínio totalitário era o Terror. Para aqueles interessados em uma versão menos "acadêmica" do que significa este Terror, com T maiúsculo, sugeriria o clássico livro do escritor judeu-italiano Primo Levi "É isto um homem?", um dos textos onde ele narra suas experiências em Auschwitz.

Dessa forma, achava leviana e até mesmo perigosa a comparação de Hitler com Cabral. Não era necessário chamá-lo de nazista para criticá-lo. E fazê-lo, mesmo que apenas para efeito retórico diminuía a potência descritiva da palavra nazista. E era isso que aquele panfleto fazia: amesquinhava, mesmo que com uma boa intenção, o poder de uma palavra que não deveria ter seu poder amesquinhado. E há muito se tornou comum - cada vez mais comum - descrevermos qualquer figura racista, homofóbica, misógina, e, em geral, com pendores ou feitos violentos, como fascista (que para Arendt também era distinto do nazista). E assim, fomos apequenando esta palavra. E não foi apenas a singularidade conceitual que se perdeu, coisa que, no limite, só interessa mesmo a acadêmicos e intelectuais. Perdemos com ela a "capacidade retórica" da palavra. Se Sérgio Cabral é nazista, se seu coleguinha de trabalho misógino é fascista, ser fascista e nazista não é tão ruim assim.

Também não acho que Bolsonaro seja nazista. Para mim, mesmo a alcunha de fascista não me parece descrevê-lo adequadamente, ainda que não tenha tantos problemas com ela. Frequentemente o descrevo como proto-fascista, só porque sou chato. Mas se houve na história brasileira recente alguma liderança política a quem se prestaria a possibilidade de associação com este tipo de ideologia política, esta seria Bolsonaro. Mas nós da esquerda - progressistas e tolerantes - acusamos tanto nossos adversários de fascistas e nazistas, que tais acusações hoje já não produzem qualquer efeito (1).

Na imagem estilizada do candidato, aparecem os dizeres do movimento "Ele Não". Diante dela, boa parte do eleitorado, hoje, nos responde:

"Ele, nazista? Sim, e daí?!


Notas

1 – Para os que leem inglês e se interessam pelo uso inconsequente destes termos, sugiro este pequeno texto: https://quillette.com/2018/10/31/nazis-a-modern-field-guide/



74 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Faça parte do nosso Grupo no Facebook e mantenha-se informado sobre cursos e pesquisas

Sem Título-5.jpg

Seja um professor cooperado

email: contato.codemy@gmail.com

Tel. 21 98161 02 03

Siga-nos em nossas redes sociais 
  • Facebook Social Icon
  • YouTube Social  Icon
  • Instagram ícone social

Licença de compartilhamento, reprodução e alteração desde que sem fins proprietários e lucrativos., com a devida citação. Codemy.me. 2018